Energias renováveis e a sua importância no desenvolvimento energético da europa: do panorama atual ao futuro das empresas e da academia

No dia 30 de maio, decorreu a sessão "Energias renováveis e a sua importância no desenvolvimento energético da europa", organizada no âmbito da JobShop, a Feira de Engenharia e Tecnologia promovida pela Associação de Estudantes do Técnico. O painel contou com a participação de Rui Castro e Jorge de Sousa, docentes do DEEC, de Susana Ludovino, alumna de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores e atualmente responsável pelos estudos e temas europeus da REN, e de Diogo Almeida, coordenador do desenvolvimento de negócios de hidrogénio e combustíveis renováveis da Galp. A conversa foi moderada por Jorge Marques, estudante de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores e atual presidente do Técnico Debate Club, e contou com 3 rodas temáticas: o panorama europeu (metas e realidade), a engenharia, o mercado e a operação e o futuro, as empresas e a academia.

«A europa tem metas ambiciosas para 2030 e 2050, mas entre os objetivos políticos e a realidade da engenharia e da indústria haverá sempre uma distância», começou por referir Jorge Marques. A frase serviu de mote para a conversa, que teve início com o debate sobre a transição energética e a sua relação com as infraestruturas.
A europa exige, pelo menos, 42,5 % de energias renováveis até 2030, mas fala-se de falta de infraestruturas. Há um divórcio entre o que a academia e a política projetam e os prazos reais para construir a infraestrutura física, provar licenciamentos e operar a rede no dia-a-dia?
Jorge Marques, Presidente do Técnico Debate Club
Susana Ludovino começou por destacar que, neste momento, Portugal tem cerca de 35% de incorporação de energias renováveis. «Em 2025, 80 a 85% da energia foi fornecida por fontes de energia renováveis. Isto parece muito, mas num ano que não temos tanta água ou temos menos vento ou sol, esta percentagem tem tendência a ser muito mais baixa», realçou, acrescentando que, no ano passado, a meta para a energia eólica foi a produção de cerca de 10 gigawatts (GW). No entanto, foram apenas integrados 6 GW na rede elétrica. Em relação à produção de energia fotovoltaica, a meta foi 20 GW e o valor real rondou os 8 GW. Embora algumas tecnologias tenha tido um crescimento acelerado, existem dificuldades no licenciamento e na realização de construções, por exemplo, de centrais fotovoltaicas e linhas elétricas.

Rui Castro continuou a reflexão sobre o tema reforçando que existe um «grande entusiasmo no setor das energias renováveis», mas que a burocracia atual contribui para atrasos significativos na área, sendo necessário criar um quadro legislativo que permita que os processos administrativos se tornem mais céleres. «Nós já provámos que somos capazes de produzir energia eólica. O desafio, nas energias renováveis, não está do lado das tecnologias. (...) O problema da europa não é a ambição, é a falta de execução», destacou o professor.
A tecnologia existe, ela é acessível, está pronta a ser instalada e nós somos capazes de a instalar. Se não a instalamos é porque existem dificuldades puramente administrativas que impedem que essa instalação se concretize na prática.
Rui Castro, investigador no INESC-ID

Jorge de Sousa complementou realçando a necessidade de diminuir a dependência energética, destacando que há uma diferença entre eletricidade e energia no seu todo: «a eletricidade representa 25% de consumo final de energia. (...) Se, por um lado, é relativamente simples descarbonizar a eletricidade, (...) não podemos dizer o mesmo relativamente à energia final.» A europa importa aproximadamente 55% da energia que consome, algo que acarreta consequências económicas e políticas. Para diminuir esta dependência, o investigador realçou a possibilidade de eletrificação de setores como o dos transportes. No entanto, relembrou também que esta transição, além de requerer investimento, não é transversal a todas os sistemas, o que exige e procura de soluções alternativas que contribuam para a descarbonização.

O investigador destacou também a necessidade de olhar para o mercado tanto a curto como a longo prazo, tendo em conta o investimento, a respetiva viabilidade e as receitas futuras da produção energética, assim como o financiamento, os planos de negócio e a ótica do consumidor.
Por outro lado, Jorge de Sousa chamou também a atenção para a existência de um desfasamento entre a produção e o consumo, algo que requer também soluções como a aposta em mercados flexíveis e em sistemas de armazenamento como baterias.

A 3.ª ronda do painel teve início com o debate sobre a integração de jovens no mercado de trabalho. Susana Ludovino destacou que, atualmente, as novas contratações têm sido um desafio, não pela falta de qualificações, mas devido às especificidades das vaga nas diferentes áreas, desde a engenharia ao planeamento. Além da formação académica, referiu também que os estudos a longo prazo exigem muito tempo de aprendizagem, algo que não vai ao encontro das expectativas de muitos jovens, e aplicação de soft skills, como o trabalho em equipa e a proatividade.
Do ponto de vista da academia, Rui Castro complementou a intervenção de Susana Ludovino sublinhando a importância da leitura, do estudo e da aprendizagem dos fundamentos. «Nós temos de ensinar a pensar, a desenvolver pensamento crítico, a antecipar problemas (....)», afirmou, realçando o papel da universidade na preparação dos jovens para a vida profissional. O professor realçou também que, durante o mestrado, os estudantes têm contacto com os últimos avanços na área, de acordo com a especialização que escolhem, devido ao facto de os docentes serem também investigadores.

Jorge de Sousa realçou ainda a necessidade de adaptação, por parte das empresas, de forma a integrar mais jovens e utilizar novas tecnologias que contribuam para a otimização dos resultados. Neste sentido, o investigador sublinhou também que, embora existam cada vez mais ferramentas digitais, a tecnologia requererá sempre o recurso a hardware, algo que depende do trabalho de engenheiros, independentemente da área.
Além das 3 rondas, o painel contou também com a colocação de perguntas, por parte do público, que incluíram temas como o ponto de vista do consumidor na transição energética, a importância da criação de sistemas de redundância e os desafios na execução de projetos.
