TIS 2026: Do desenvolvimento de tecnologias para a defesa e segurança ao debate sobre o uso ético da inteligência artificial

No passado dia 3, além de sessões dedicadas ao empreendedorismo, a Técnico Innovation Summit recebeu painéis dedicados à investigação e ao impacto da inteligência artificial, tendo em conta a transformação digital e as questões éticas associadas.
A sessão "Mar, Ar, Espaço, Defesa e Segurança" foi moderada por Pedro Petiz, líder da de Sistemas Autónomos da TEKEVER, e contou com a intervenção dos professores Rodrigo Ventura, investigador no Instituto de Sistemas e Robótica (ISR), João Fernandes, investigador no Instituto de Engenharia Mecânica (IDMEC), e Carlos Fernandes, investigador no Instituto de Telecomunicações (IT). O painel teve início com uma breve apresentação dos diferentes projetos dos centros da investigação.
No que diz respeito ao IT, Carlos Fernandes começou por destacar a investigação na área dos pequenos satélites no contexto do new space, onde estão a ser desenvolvidos sistemas que possibilitam a criação de satélites "à medida", de acordo com as funções pretendidas. Dentro da área espacial, referiu também a preocupação com a deteção de objetos, como meteoritos, sobretudo em órbitas mais baixas, nas quais poderão haver riscos para as trajetórias dos satélites: "Existe, em Pampilhosa da Serra, um rádiotelescópio que está, neste momento, em fase de instalação e que vai permitir fazer esse seguimento", realçou.

Por outro lado, investigador destacou também outros projetos do IT que integram comunicações quântica, visando contribuir para comunicações mais seguras, e iniciativas que têm como objetivo a análise não disruptiva de materiais, podendo ser utilizadas para a deteção de falhas não visíveis, por exemplo, em navios e aeronaves. Por último, referiu ainda uma iniciativa que consiste na aquisição de bio-sinais, tendo em vista contribuir para a área da medicina, algo que poderá ter impacto na monitorização do estado de saúde dos membros de corpos de intervenção.
De seguida, Rodrigo Ventura abordou o trabalho desenvolvido no Instituto de Sistemas e Robótica (ISR), nomeadamente o desenvolvimento de sistemas autónomos destinados tanto a aeronaves como a veículos aquáticos. No que diz respeito ao ambiente espacial, o investigador destacou o projeto em que se encontra mais envolvido atualmente, dedicado ao desenvolvimento de tecnologias que integram inteligência artificial para detetar falhas nos sistemas dos satélites. Rodrigo Ventura referiu ainda o projeto que visa a criação de um dispositivo destinado à acoplagem de naves espaciais, e o envolvimento no IST NanoSatLab, que prevê o desenvolvimento e lançamento de novos satélites, nos próximos anos.

Após a intervenção de Rodrigo Ventura, João Fernandes deu também a conhecer alguns dos projetos ativos no IDMEC. Começou por referir uma iniciativa com exército, que visa atualização de veículos que já não têm a certificação de blindagem necessária para a utilização militar. Abordou também dois projetos que decorrem em paralelo, destinados à teleoperação e à robotização. No primeiro caso, foi desenvolvido um sistema de condução de um veículos autónomos, algo que reforçou ser uma mais valia para a indústria. Já o segundo projeto, tem como objetivo tornar veículos movidos a diesel em sistemas híbridos, algo que contribui não só para a autonomia como também para a redução de ruído dos mesmos. "O objetivo, daqui para a frente, é usar estes veículos para, por exemplo, lançamento de drones, estações de reconhecimento de resgate de pessoas... e pode haver também não só a possibilidade de contribuir para a defesa como também para a segurança em situações de catástrofes", realçou.
Por outro lado, abordou ainda a criação de plataformas marítimas completamente elétricas, que possam estar no mar 24 horas e que incluam a deteção de intrusos e de naufrágios. Em última análise, referiu ainda o desenvolvimento de aeronaves que incluam a utilização de hidrogénio e de motores com materiais supercondutores.

Depois da intervenção dos docentes, Pedro Petiz questionou os oradores sobre temas como a colaboração entre os centros de investigação e as empresas, incluindo o desenvolvimento e a implementação de protótipos, os benefícios da investigação e a captação de talentos.
Relativamente ao espaço, Carlos Fernandes realçou que tem existido o contacto empresas, algo que foi influenciado pelo desenvolvimento do ISTSat-1, que incluiu o esforço de docentes e estudantes do Técnico.
João Fernandes destacou, como principal desafio, a dificuldade em executar os projetos, tendo em conta as prioridades, os recursos e a burocracia ligada à indústria, algo existente mesmo em situações em que há financiamento disponível e interesse na aquisição de conhecimento. Neste sentido Rodrigo Ventura realçou o forte papel da investigação na identificação de problemas reais e na produção de conhecimento científico necessário para a indústria. "Há uma série de coisas que nascem pela curiosidade (...) que criam ideias", destacou.

A sessão terminou com uma breve reflexão sobre o impacto da inteligência artificial na academia e na indústria. "A inteligência artificial nasceu há 50 anos; tem uma história muito longa. Sem dúvida que é uma ferramenta muito importante e potencia a inovação, (...) mas não resolve tudo", continuou o investigador do ISR, destacando a necessidade de reconhecer as possibilidades de utilização destas ferramentas como um complemento na implementação de novas tecnologias. João Fernandes completou a intervenção destacando o impacto na educação e a utilização destas ferramentas, por parte dos alunos.
Carlos Fernandes concluiu o debate sublinhando que a evolução da computação tem permitido, ao longo do tempo, um aumento da otimização dos sistemas, tendo como consequência a maior utilização destas ferramentas.

O debate sobre o impacto da utilização da inteligência artificial foi também o tema central do painel "Transição Digital da Inteligência Artificial e Ética", que contou com participação de Mário Figueiredo, investigador no Instituto de Telecomunicações.
O painel teve início com a questão de como poderá a europa ter um papel relevante na inovação global sem abdicar do seu valor ético. Mário Figueiredo começou por destacar que existe, atualmente, uma grande interação com starups portuguesas, no entanto existem vários desafios como a segmentação, algo que difere de países como os Estados Unidos ou a China. No entanto, realça que, embora a europa não possua empresas de tecnologia de ponta, no que diz respeito à inteligência artificial e às telecomunicações, dando como exemplo Google ou a Meta, tem um nível de qualidade de vida superior aos referidos países, incluindo parâmetros como o apoio e o capital social.
No que diz respeito à legislação, o investigador realçou que a "regulação não atrasa progresso", destacando que esta questão também existe nos Estados Unidos e não impede o desenvolvimento da tecnologia.

Relativamente à ética, o investigador destacou que a utilização da inteligência artificial tem também impacto na forma como cada utilizador se relaciona com o conhecimento, algo demonstrado pelo o uso destas ferramentas por parte dos estudantes mais novos, do ensino secundário e de licenciatura, algo que está relacionado com a maior acessibilidade das mesmas e com a sua frequente utilização em tarefas escolares. No entanto, o investigador sublinha que este facto realça apenas um problema que já existia: os alunos, em portugal, em particular, focam-se mais na obtenção de notas do que no processo de aprendizagem. "Isto só se quebra mudando a mentalidade", reforçou.
Ao longo da sessão foram também abordados temas como a capacidade de planeamento das empresas, a utilização de diferentes plataformas, a exploração do mercado de trabalho. O painel esteve também aberto a perguntas, por parte do público.

