ElectroStars: Filipa Lino

Esta semana partilhamos a entrevista a Filipa Lino, estudante de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores e vencedora da bolsa Feedzai Women in Science.

Filipa Lino é atualmente estudante do Programa Doutoral em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (PDEEC) e investigadora no Instituto de Sistemas e Robótica (ISR). A sua investigação, na área de computer vision, centra-se na utilização de inteligência artificial para o desenvolvimento de sistemas de estimação de poses 3D, que deem a conhecer as possíveis posições do corpo humano através da análise de vídeos.

A estimação de pose 3D é basicamente (...) estimar as coordenadas de cada ponto chave do corpo, ou seja, pernas, joelhos... etc, no mundo 3D, [após a análise de imagens do mesmo]. Isto ajuda-nos a interpretar a ação da pessoa.

Filipa Lino, estudante do PDEEC e investigadora no ISR

Desta forma, o sistema pode ser utilizado, por exemplo, em caixas registadoras inteligentes, que calculam o valor a cobrar de forma automática após o reconhecimento dos artigos, e em smart stores, onde são escolhidos os respetivos produtos e é efetuada a cobrança, mesmo que o cliente não passe num ponto de pagamento fisicamente. "Isto é basicamente um sistema de câmaras que está a acompanhar o percurso do cliente na loja, faz a identificação do mesmo, veem o que está a tirar das prateleiras [...]", refere Filipa Lino. Durante o mestrado, esteve integrada num projeto de smart stores, no Técnico. A sua tese consistiu na resposta a oclusões: situações em que não é possível analisar a posição completa do corpo humano por falta de dados: "a câmara pode estar a captar a pessoa, mas não vê o corpo na totalidade, porque existe sobreposição de objetos - podemos ter uma prateleira a tapar uma parte do ombro e não sabemos o que o braço está a fazer - ou porque a pessoa não está completamente no enquadramento da imagem - os braços podem não estar visíveis", explica.

No entanto, estes são apenas dois exemplos de aplicações destes sistemas, existindo diversas possibilidades para os mesmos. Atualmente, Filipa Lino está a trabalhar num modelo que analisa as posições anatómicas do corpo humano e do tipo de movimento efetuado, em períodos de tempo determinados.

O meu objetivo é desenvolver um modelo capaz de estimar estas coordenadas do mundo 3D, independentemente da presença de oclusões.

Filipa Lino, estudante do PDEEC e investigadora no ISR

O gosto pela área levou-a a participar no programa de Erasmus na Technische Universität Wien. A escolha, aliada à curiosidade de viver uma temporada em Viena, teve também em consideração a posição da universidade em rankings e o facto de existirem várias unidades curriculares com um número reduzido de créditos, o que facilitou a conjugação de várias. "Gostei imenso da experiência", destaca, realçando que foi em Viena que decidiu o tema para a tese de mestrado. Na sua passagem pela universidade, integrou vários projetos, onde teve contacto com a resolução de problemas reais. "Houve um projeto em que nós tínhamos de ir buscar uma aplicação direta de computer vision e eu fui buscar uma fábrica de pão: a fábrica usava câmaras, via se o pão tinha alguma deformação e, se tivesse, excluía [o produto com defeito]."

Além do desenvolvimento de soluções com impacto real, a estudante sublinha que, durante este programa, teve a oportunidade de desenvolver a sua capacidade de comunicação, não só através de apresentações e como também de exames orais: "não era uma coisa com a qual estava confortável, mas, quando acabei o exame, gostei da experiência".

Eu acho que o exame teórico é bastante importante porque temos de saber os pormenores, escrevê-los, e os professores vão avaliar com muito mais clareza aquilo que o aluno sabe (...), mas a melhor maneira que um estudante tem de perceber o que sabe é explicar a alguém.

Filipa Lino, estudante do PDEEC e investigadora no ISR

Enquanto estudante deslocada, enfrentou desafios tanto a nível académico, adaptando-se aos diferentes métodos de ensino e de avaliação, como a nível pessoal, incluindo a criação de relações com outros estudantes e a gestão financeira. Por outro lado, teve também contacto com diferentes visões da vida académica e profissional, uma vez que, na Áustria, é comum os estudantes optarem por se matricular no mestrado após o contacto com o mundo do trabalho: "Acho que me ajudou a ver este meu percurso com menos pressa e foi isso que me fez seguir o doutoramento", refere.

Após a conclusão do doutoramento, realça que gostaria de continuar a trabalhar na área de computer vision e na aplicação de modelos de aprendizagem automática em projetos com impacto direto, seja na indústria, numa startup ou em investigação: "Eu não gosto muito de planear a longo prazo. Comecei sempre assim, sem saber que queria mesmo engenharia, e fui construindo devagar o caminho. Quero continuar desta forma, consoante as oportunidades e aquilo que me traz felicidade".

A escolha da licenciatura teve origem numa análise, de forma independente, da lista dos cursos de engenharia: "eu com 17 anos, no 12.º ano, não sabia bem o que era a engenharia, nunca tive aquela clássica direção de ter um familiar na área. Em casa o meu pai é de saúde, a minha mãe de direito e a minha irmã de artes". A paixão pela engenharia eletrotécnica e de computadores foi construída ao longo do seu percurso.

Se uma pessoa está a gostar do curso, do que está a aprender, se está motivada e se vê a trabalhar nesta área, acho que o faz com facilidade.

Filipa Lino, estudante do PDEEC e investigadora no ISR

Embora a licenciatura em engenharia eletrotécnica e de computadores não tenha sido a sua primeira opção, reforça que, desde cedo, sabia que iria gostar do curso, devido às unidades curriculares e à abrangência do mesmo. Manteve a motivação para os estudos, gerindo o tempo de forma a incluir também momentos de lazer, nomeadamente através da música: "adoro desligar-me do trabalho (...), toco piano e faço muito exercício físico. Estas atividades fazem-me parar, independentemente do estado em que o trabalho esteja (...). É quando paro que consigo ver tudo com clareza."

Além da gestão do tempo, Filipa Lino refere também a importância de fazer perguntas ao longo do percurso académico: "[se voltasse atrás], diria para não ter medo de não saber. Acho que sempre receei muito o ter de assumir que não sabia algo ou que tinha dúvidas e não perguntava aos professores. (...) Hoje em dia, olho para trás e percebo que foi uma estupidez". Em conclusão, reforça ainda que sempre se sentiu num "ambiente seguro", no que diz respeito à igualdade de género: "No geral, acho que nunca ninguém duvidou das minhas capacidades, nunca ninguém duvidou de mim por ser mulher; não foi uma limitação de todo".

Em conclusão à entrevista, a estudante, reforça a preocupação para com a aprendizagem dos alunos mais novos, condicionada cada vez mais pelo contacto com ferramentas de inteligência artificial como o ChatGPT, e sublinha a importância do desenvolvimento de espírito crítico e de fazer perguntas, ao longo do curso.

Se voltasse atrás, diria para abusar das perguntas e que este curso não é difícil, não há ninguém menos capaz de o fazer.

Filipa Lino, estudante do PDEEC e investigadora no ISR

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