ElectroStars: Luana Lino

A escolha do curso a seguir, após a conclusão do ensino secundário, é vista como um momento decisivo para a vida de muitos jovens. No entanto, o caminho pode não ser uma trajetória linear. Luana Oliveira, atualmente estudante do 3.º ano da Licenciatura em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (LEEC) e membro do departamento de powertrain da Fórmula Student do Técnico (FST Lisboa), é um exemplo de como a mudança pode ser algo positivo. Em entrevista ao DEEC, falou um pouco sobre o seu percurso, desde a sua infância, no Brasil, até à atualidade.
Durante o seu ensino secundário, nunca ponderou seguir um curso de engenharia. O fascínio pelo estudo do DNA, influenciado pela atribuição do Prémio Nobel, no âmbito da edição genética (em 2022), levou-a a seguir Biologia. Durante o 1.º ano fez parte da tuna, através da qual conheceu vários estudantes de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores: «foi o meu 1.º contacto com o curso», relembra. No 2.º semestre, começou a perceber que já não se identificava com a sua escolha inicial e decidiu seguir a LEEC: «foi das primeiras opções que surgiu porque juntava muitas coisas de que gostava, entre elas robótica (...) e programação», refere.
Nós, com a base de conhecimentos que temos no curso, conseguimos usar fórmulas matemáticas para descrever o mundo real e solucionar problemas, sejam eles pequenos ou à escala espacial.
Luana Oliveira, estudante de LEEC e membro da FST Lisboa
Atualmente, faz parte do departamento responsável pela gestão de energia do mais recente protótipo da FST Lisboa, o FST15. Conheceu o núcleo durante a sua pesquisa sobre cursos: «Eu lembro-me muito bem de estar no site do Técnico e de pensar "olha, era muito giro estar na licenciatura e ganhar experiência prática com isto, principalmente em engenharia"», relembra. Decidiu inscrever-se no dia aberto e candidatar-se ao departamento de eletrónica e software, durante o seu 1.º ano no Técnico.
«Eu acho que sempre estive muito encantada, porque era tudo muito novo. Também é impressionante que tenhamos tanto investimento. Há empresas que confiam em nós para construir um carro do zero e é mesmo incrível que eu possa ter essa experiência», realça.
Na minha cabeça era super estranho fazer um carro de fórmula assim, na faculdade; era algo muito distante.
Luana Oliveira, estudante de LEEC e membro da FST Lisboa
Contudo, devido a uma avaria no seu computador, que utilizava para a realização das tarefas exigidas, acabou por abandonar o processo de recrutamento, algo que não foi sinónimo de desistir: voltou a inscrever-se no dia aberto e a candidatar-se à equipa no 2.º ano, ingressando, desta vez, no departamento de powertrain: «[Atualmente], eu estou responsável pelo teste de células. Nós recebemos as células de lítio e podemos testá-las em vários parâmetros: impulso, descarregamento, carregamento... e ver quanto é que a célula aguenta como se fosse uma situação real, por exemplo, numa aceleração ou numa travagem do carro», explica.

Quando questionada sobre as razões que a levaram a lutar pela participação neste núcleo, Luana Oliveira realça que a paixão pelo automobilismo sempre esteve presente na sua família. Recorda que, durante a sua infância, um dos principais temas, nas conversas de família, era o percurso de Ayrton Senna, um piloto brasileiro emblemático na história da Fórmula 1, que marcou a cultura do país.
Eu cresci com, aos domingos, ouvir os carros de fórmula um a fazerem barulho na sala. Eu saía do quarto, na casa dos meus avós, e ia para a sala assistir às corridas na televisão, com os meus pais.
Luana Oliveira, estudante de LEEC e membro da FST Lisboa
Acabou por vir para Portugal, com os pais, aos 13 anos, enfrentando mudanças na cultura, na estrutura do ensino e na comunicação. No entanto, destaca que a transição não foi um processo difícil: «no Brasil, nós temos muito essa influência, de termos de ir estudar para fora, conhecer outras culturas... por isso, eu também sempre gostei muito de viajar e não tive grande resistência a sair do país», refere.
No geral, a estudante vê os diferentes desafios enfrentados ao longo do seu percurso como algo benéfico, constituindo oportunidades para crescer a nível pessoal e profissional: «A minha experiência, aqui no Técnico, tem sido muito desafiante, mas também muito boa. Eu gosto muito deste ambiente universitário, (...) em que eu posso aprender e transmitir conhecimento. (...) É muito bom para abrir horizontes», reforça.
No entanto, o contacto com diferentes perspetivas não se limita à vida académica. A estudante é também voluntária, desde o ensino secundário, no projeto Gambozinos.
Nós animamos campos de verão e é muito giro porque aquilo junta dois mundos diferentes, que são miúdos de colégios particulares e miúdos de bairros sociais. São dois mundos que "chocam" ali durante duas semanas num campo de férias.
Luana Oliveira, estudante de LEEC e membro da FST Lisboa
Luana Oliveira destaca que a participação neste projeto tem também contribuído para o desenvolvimento do espírito de equipa e da sua comunicação, algo que realça ser essencial para a vida académica e profissional, independentemente do setor.
Relativamente ao futuro, refere que se trata de um caminho em aberto. Ao longo da licenciatura adquiriu o interesse por telecomunicações, energia e modelação e simulação de circuitos eletrónicos e espera ganhar experiência na indústria em pelo menos uma destas áreas. Reforça também que o género não é um problema, uma vez que as raparigas têm igualmente as capacidades necessárias para contribuir para o desenvolvimento científico nestas áreas: «eu acho que encaro esse facto [de se ver menos mulheres em engenharia eletrotécnica e de computadores] de forma otimista. Quando eu vim para o curso, tinha noção do que tinha à minha espera. Eu vi a lista de colocados do curso e percebi que era tipo 80% de rapazes e 20% de raparigas, (...) mas, ao longo dos anos, tem crescido o número de meninas em várias áreas da engenharia.»
Vamos ter mudança nos próximos anos mas é preciso insistir nisso. (...) Eu acho que tem de ser algo incentivado, mostrar que as raparigas podem ocupar esse lugar.
Luana Oliveira, estudante de LEEC e membro da FST Lisboa
Em conclusão à entrevista, Luana destaca que, além de ser necessário incentivar as jovens a seguir caminhos profissionais em áreas como a alta voltagem, seria também benéfica uma ligeira mudança no sistema de ensino, básico e secundário, que incluiria ambos os géneros: «deveria haver ligação entre a matéria e os cursos. Eu lembro-me de ver o circuito elétrico, em física e química, mas não me recordo de ouvir o nome "eletrotécnica”», refere.
Para colmatar esta falha, a estudante incentiva os mais novos a visitar os dias abertos das universidades, de forma a terem contacto com laboratórios, docentes e estudantes das diferentes áreas.
É importante saber por que é que vimos para o ensino superior, vir aos dias abertos e perceber, com pessoas do curso, quais são as dificuldades, se as cadeiras práticas são coisas de que vamos gostar.
Luana Oliveira, estudante de LEEC e membro da FST Lisboa
Este ano, o Dia Aberto do Técnico realiza-se no dia 18 de abril.
