ElectroStars: Maria Clara Simões

Maria Clara Simões é atualmente membro do Comité de Atividades Estudantis (Student Activity Comitee) do IEEE Portugal e Presidente da Camerata de Estudantes do Técnico. Recentemente terminou o Mestrado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores, com 20 valores. Entre a música e a eletrónica, as suas grandes paixões, aprendeu a gerir a organização de atividades e projetos do IEEE Student Branch do Técnico, os ensaios e concertos da Camerata e as aulas, tanto como estudante como teaching assistant. Em entrevista ao DEEC, Maria Clara deu a conhecer um pouco mais seu percurso, desde a escolha do curso ao seu envolvimento nas diferentes iniciativas.

A Engenharia Eletrotécnica e de Computadores sempre esteve presente na sua vida. «Eu tenho um tio que é engenheiro eletrotécnico», começou por referir. Por este motivo, o seu interesse pela área teve início em criança, quando o tio oferecera um kit de eletrónica ao seu irmão:

O kit tinha um amplificador, um rádio e brincávamos com lâmpadas e interruptores (...). Eu lembro-me de ver o meu irmão e de estar com o meu pai a montar os circuitos. Isso foi uma memória que me ficou.

Maria Clara Simões, Mestre em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores

Esse interesse ficou latente, por algum tempo, ressurgindo durante o ensino secundário, devido à escolha do curso. «Eu sabia que queria vir para engenharia, no meu secundário, mas não sabia exatamente qual», refere. Explorou algumas áreas, como engenharia mecânica, física e aeroespacial, mas «não eram a peça que encaixava», voltando a surgir a palavra «eletrotécnica»: «Lembro-me de pesquisar, ir ao site do técnico e de falar com o meu tio sobre isso e, para mim, foi a escolha que fez mais sentido pela abrangência. Era um curso que me dava bases de engenharia, durante a licenciatura toda, e não me limitava», explica.

Por outro lado, foi também influenciada pelo seu irmão, que também ingressou no mesmo curso e partilhava consigo o conteúdo das unidades curriculares e a preparação dos laboratórios. A curiosidade pela área foi crescendo.

Durante a licenciatura, descobriu o gosto pela eletrónica. Recorda que esta paixão teve início de uma forma bastante improvável: foi durante o estudo para um exame de uma unidade curricular, onde estava com alguma dificuldade em compreender a matéria, que sentiu o "click".

Foi a estudar para um exame que de repente aquilo começou a fazer sentido e era tudo tão óbvio que os exercícios quase pareciam uma brincadeira.

Maria Clara Simões, Mestre em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores

Após o exame, decidiu explorar o currículo da licenciatura, assinalando as unidades curriculares onde poderia aprender mais sobre a área: «Era aquela que mais brilho nos olhos me dava. (...) Para mim, o mais fascinante em eletrónica é o facto de que algo pode ser sempre melhorado», realça, destacando que existem vários parâmetros para a otimização de sistemas, desde a eficiência energética à diminuição do tamanho do próprio circuito.

No início do mestrado, decidiu entrar para o IEEE SB do Técnico especializado em eletrónica, o CAS/SSCS (Circuits and Systems/Solid-State Circuits Society), onde participou no desenvolvimento do projeto MESA. Atualmente, é membro do SAC (Student Activity Comitee), que gere e dá apoio aos student branches das universidades portuguesas, por exemplo, em processos como eleições, em questões relacionadas com financiamento e no contacto com o Comité Executivo.

Pela mesma altura em que entrou para o IEEE SB, começou também a estagiar na SiliconGate, onde começou por acompanhar o trabalho de um estudante de mestrado e acabou por desenvolver a sua dissertação. O trabalho de Maria Clara consistiu na criação de um LDO (um regulador de tensão) que integrasse amplificadores e inversores e garantisse que a tensão de alimentação entregue a um determinado circuito se mantivesse estável, independentemente das variações de temperatura do sistema. «O meu LDO foi feito para aguentar variações de corrente muito elevadas, até 300 mA, e foi feito para processadores que precisam desse tipo de corrente como em IoT ou processadores de borda de IA, com processamento no local», explica.

Às vezes, quanto mais coisas temos de fazer, mais organizados somos e mais tempo ganhamos.

Maria Clara Simões, Mestre em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores

Paralelamente ao desenvolvimento da tese, ao estágio e às atividades do IEEE, Maria Clara Simões entrou também para a presidência da Camerata de Estudantes do Técnico (CEIST). “Foi uma história muito gira”, refere, recordando que se apercebeu da existência do grupo através de cartazes espalhados pelo Técnico. Candidatou-se ao recrutamento mas não obteve feedback. Conhecendo um dos membros do grupo, decidiu investigar. “A Camerata está parada”, afirmaram. No entanto, esta resposta não a fez desistir, tendo tomado a iniciativa de marcar uma reunião e, posteriormente, ensaios, mesmo com um número reduzido de músicos.

A motivação regressou ao grupo e decidiram realizar um concerto de Natal nesse ano. Embora os ensaios tenham tido início por volta de outubro, o concerto concretizou-se, na paróquia de Benfica, tendo contado com a participação de um dueto de cordas, formado por um dos membros da Camerata e uma estudante que veio também a integrar o grupo mais tarde, e com um coro, formado por amigos e familiares também dos membros. Apresentaram ao público a Gloria de Vivaldi. «No final do concerto houve mesmo uma grande sensação de orgulho no sentido de saber que este projeto tem pernas para andar», realça.

 Éramos 4, agora somos 30 (...). Tivemos um crescimento muito intenso. Eu comecei a “dar à manivela” mas depois a máquina começou a trabalhar por si só.

Maria Clara Simões, Mestre em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores

Ao longo do tempo, foram surgindo várias propostas e projetos, incluindo convites do Coro de Câmara da Universidade de Lisboa, para tocarem o Magnificat de Bach, de um encenador, para participarem num ciclo de concertos, e para montar uma ópera, estando atualmente a trabalhar na Flauta Mágica de Mozart. Este ano vão também realizar o Celebratorium, que incluirá o repertório de Luís de Freitas Branco.

Quando questionada sobre como geria o seu tempo, tendo em conta tantas atividades, Maria Clara Simões destaca a importância não só da disciplina como também a organização de prioridades: «Eu apercebi-me que, de facto, tinha tempo para lidar com estas coisas todas; perdi foi tempo com coisas que não eram tão necessárias. As pessoas falam muito dos telemóveis, mas a verdade é essa: comecei a passar menos tempo do telemóvel e, de repente, 2 ou 3 horas que eu tinha eram dedicadas à Camerata, e conseguia continuar a estudar ao nível que eu estudava, estar no IEEE e a dar aulas.», destaca.

Eu acho que a frase-chave é "quem corre por gosto não cansa", mas também é muito à base de disciplina. Eu tinha a minha lista de prioridades muito bem definida.

Maria Clara Simões, Mestre em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores

Atualmente, tenta também motivar alunos mais novos a seguir Engenharia Eletrotécnica e de Computadores: «a verdade é que todas as áreas são pilares da sociedade: telecomunicações, energia, circuitos, a parte toda de controlo, robótica, sistemas ciberfísicos. Isso para mim é uma mais-valia. Genuinamente é um curso que eu acabo por recomendar muito pela abrangência», realça.

Por outro lado, sublinha também o espírito de equipa que existe entre os estudantes do curso, dos diferentes anos, e a disponibilidade tanto para o esclarecimento de dúvidas entre si como para a criação de amizades, independentemente do género.

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