ElectroStars: Matilde das Neves

Hoje partilhamos a entrevista a Matilde das Neves, estudante da Licenciatura em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores e membro do departamento de eletrónica e software da Fórmula Student do Técnico de Lisboa (FST).

O seu gosto pela área das ciências começou cedo: «Eu sempre quis seguir engenharia. No início era sobre engenharia física ou astrofísica, porque lia muitos livros, mas rapidamente percebi que gosto mais dessa área como hobby. (...) Tenho notas do meu 11.º, 12.º ano com fórmulas de física, fazia isso no tempo livre», refere. Por outro lado, partilhava o interesse pela Engenharia Naval e Oceânica (LENO). Acabou por não conseguir entrar, devido a uma pequena diferença em relação à média de ingresso, matriculando-se na Licenciatura em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (LEEC), algo de que não se arrepende. Decidiu continuar no curso, devido à abrangência do mesmo: «Eu gostava de seguir engenharia eletrotécnica mas aplicada à área de naval», realça.

A Engenharia Eletrotécnica é uma área extremamente vasta, podes ir para o ramo que quiseres da engenharia. Temos impacto na maior parte das áreas que envolvem tecnologia.

Matilde das Neves, aluna de LEEC e membro da FST Lisboa

Matilde das Neves destaca que, ao longo do tempo, o papel do engenheiro eletrotécnico tem vindo a crescer, acompanhando a evolução das tecnologias utilizadas nos diferentes setores. Os veículos são um exemplo disso, uma vez que têm vindo a incorporar cada vez mais sistemas elétricos, algo visível também nos protótipos da FST, que atualmente incluem também sistemas de condução autónoma.

A estudante teve conhecimento da equipa através de um amigo, que lhe falou um pouco sobre a dinâmica do núcleo. Pesquisou sobre o tema e candidatou-se, entrando como recruta, no 2.º semestre.

Acho que éramos 20 recrutas a tentar entrar para 3 lugares, e eu era de 1.º ano (...). Lembro-me de dizer à minha mãe “não sei se consigo”.

Matilde das Neves, aluna de LEEC e membro da FST Lisboa

Uma vez que estava apenas no início do curso, dedicou-se ao máximo ao estudo da área, tanto na teoria como na prática.

Antes de se tornarem membros da FST, os recrutas são desafiados a desempenhar várias tarefas, incluindo atividades gerais e exercícios específicos do departamento nos quais estão inseridos, durante 6 meses. No caso de eletrónica e software, os recrutas participam no desenvolvimento de componentes dos circuitos na bancada, ou seja, na fase anterior à integração dos sistemas no carro. Foi durante este período que Matilde das Neves começou a perceber quais eram os componentes do carro, assim como as respetivas funções.

O seu interesse pela área foi crescendo, motivando-a a dedicar mais tempo à FST, de uma forma sucessivamente mais produtiva: «São turnos de 4 horas e tens de ser o mais produtivo possível, ou seja, tens de saber o que estás a fazer», destaca.

Como recruta cheguei a ter 30 horas semanais [dedicadas à FST]. Foi um processo complicado. Além da FST, tinha o futebol (era federada) e o curso.

Matilde das Neves, aluna de LEEC e membro da FST Lisboa

Após a fase de recruta, cada membro chega a dedicar 40 a 50 horas semanais à equipa. Este ano, Matilde das Neves destaca que está a «ser mais caótico», mas de uma forma positiva: a equipa decidiu refazer a unidade de distribuição de energia do carro, alterar a disposição dos sistemas e construir uma nova placa de circuitos destinada aos sistemas de condução autónoma do carro. Além disso, a equipa está também a trabalhar sobre os sistemas que recolhem informações sobre parâmetros como a temperatura e o estado dos pneus. «A maior função que tenho é o harnessing do FST15: baseia-se basicamente na cablagem  do carro, ou seja, eu sou responsável por definir todas as ligações elétricas do carro por cabo. Por consequência conheço o carro todo a nível elétrico», explica Matilde das Neves.

Além de ser um lugar dedicado à troca de experiências entre membros de diferentes idades com um objetivo comum, a oficina é também um ambiente marcado pela música e pelas conversas descontraídas e pela criação de laços de amizade. Matilde das Neves realça que «todos os dias se aprende», algo que tem impacto não só no desenvolvimento de hard skills como também no crescimento a nível pessoal.

[Quando entrei na oficina pensei:] "é mesmo aqui que eu quero estar”.

Matilde das Neves, aluna de LEEC e membro da FST Lisboa

Por outro lado, destaca que o trabalho na FST estimula «muito a paciência», uma vez que, por vezes, existem problemas que não têm uma solução imediata. Como exemplo, recorda um episódio em que, quando tentaram recolher dados do FST14, para análise e ponto de partida para o desenvolvimento dos sistemas do FST15, o carro simplesmente não andava. Foram necessários vários dias e várias noites para resolver o problema. Por este motivo, a aluna destaca que é necessário «ter calma, ver o problema, pensar em possíveis soluções e ter tudo escrito num documento, passo a passo».

No entanto, documentação é apenas uma das componentes da cooperação: «tens de estar pronta para trabalhar em equipa, confiar no trabalho do outro. Se ele está cá é porque é tão bom como tu ou até melhor. O carro não é só teu».

Nós não fazemos menos por ser raparigas nem eles fazem mais por serem rapazes. Existe um respeito mútuo. Não existe qualquer desafio de ser rapariga numa equipa de rapazes. O recrutamento é igual.

Matilde das Neves, aluna de LEEC e membro da FST Lisboa

Quando questionada sobre inspirações femininas na sua vida, Matilde das Neves destaca o papel da sua mãe na sua vida: «é uma mulher muito trabalhadora e eu tomo muito isso como inspiração. Se eu estou aqui é porque os meus pais conseguiram dar-me essa oportunidade», realça.

No futuro, vê-se a «explorar o máximo de áreas possíveis» e a participar em projetos com impacto social e que contribuam para a sua felicidade: «A diferença está em ser um bom engenheiro ou só engenheiro. Um bom engenheiro gosta do que faz», aponta, refletindo um pouco sobre o facto de muitos estudantes serem influenciados por familiares ou amigos na escolha do curso. «São 3 ou 5 anos, para quem vai para medicina são mais ainda. Se não for aquilo de que gostas, não vale a pena», destaca, referindo também que o facto de muitos jovens não terem qualquer tipo de contacto com projetos durante o ensino secundário, algo que teria certamente impacto nas escolhas relativas ao seu futuro.

Em conclusão à entrevista, quando questionada sobre o que diria ao seu "eu" mais novo, Matilde destaca que diria o seguinte:

«Continua a trabalhar, estás num bom caminho». Acho que é muito difícil ver isso no secundário.

Matilde das Neves, aluna de LEEC e membro da FST Lisboa

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