ElectroScience: Luís Caldas de Oliveira, coordenador do programa ElectroCap

Hoje, partilhamos a entrevista a Luís Caldas de Oliveira, docente do DEEC e responsável pelo Projeto Integrador de 1º Ciclo (PIC1) da Licenciatura em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (LEEC). Ao longo dos últimos anos, o professor tem focado os seus interesses na inovação e no empreendedorismo.

Durante o seu percurso, esteve ligado a variadas áreas da engenharia eletrotécnica e de computadores, tendo liderado o desenvolvimento de sistemas de síntese de fala em português europeu, para utilização por pessoas com necessidades especiais. Orientou, também, o desenvolvimento de um acelerador de escrita com predição de texto para facilitar o uso de computadores por pessoas com paralisia cerebral. O seu interesse pela inovação levou-o a ser convidado, em 2009, por António Cruz Serra (Presidente do Técnico de 2009 a 2012) para integrar o Conselho de Gestão da Escola. Nesse ano, Luís Caldas de Oliveira recebeu o desafio de desenvolver a Direção de Transferência de Tecnologia (TT), uma vez que a Escola não possuía uma estrutura dedicada à transferência do conhecimento para a sociedade. Neste âmbito, promoveu várias iniciativas que visavam colmatar essa falha. «Começámos pela gestão da propriedade intelectual», recorda o professor. Embora já existisse um regulamento vocacionado para o registo e proteção da mesma, este foi refeito com o foco na valorização e comercialização da propriedade intelectual das tecnologias criadas.

De seguida, foram também criados os serviços de apoio à gestão de carreira e à empregabilidade dos estudantes e a Rede de Parceiros, mantendo a missão de reforçar a ligação entre o Técnico e a sociedade. Atualmente, esta rede conta com o envolvimento de 26 empresas.

Uma das formas que temos de valorizar a tecnologia do Técnico é transferi-la para as empresas, mas outra possibilidade é serem os próprios criadores a levá-las para o mercado. (...) É a forma mais eficiente da tecnologia ser valorizada, principalmente quando é muito sofisticada e está na linha da  frente do conhecimento.

Luís Caldas de Oliveira, coordenador do programa ElectroCap

Motivado pelo seu interesse em criar iniciativas que fomentassem o espírito de inovação e de empreendedorismo na comunidade académica, o professor realizou alguns cursos especializados na área. Frequentou um curso da Universidade de Babson e outro denominado de Lean LaunchPad, promovido por Steve Blank, onde aprendeu a importância do contacto permanente com o utilizador no desenvolvimento de inovações valiosas para a sociedade.

Realçando que a melhor forma de aprender algo é através do ensino, Luís Caldas de Oliveira acrescentou à sua atividade docente várias unidade curriculares ligadas ao empreendedorismo, incluindo a que leciona presentemente no Mestrado em Engenharia Electrotécnica e de Computadores. Tem procurado capacitar os estudantes na área do empreendedorismo, incluindo questões como o desenvolvimento de produtos e/ou serviços inovadores, a criação de propostas de valor e de parcerias, a escolha do segmento de clientes e a gestão das relações com os mesmos, a escolha dos canais de divulgação que serão utilizados e um plano financeiro a três anos, contabilizando a valorização do projeto, a estimativa dos custos, o investimento, as receitas e o retorno aos investidores.

O professor esteve também envolvido na criação de programas como o Lab2Market@Técnico, uma ideia de António Brandão Vasconcelos com o objetivo de valorizar as tecnologias desenvolvidas no Técnico com impacto na resolução de problemas da sociedade, e o E.Awards@Técnico, que promove os projetos inovadores desenvolvidos pelos estudantes inscritos nas unidades curriculares de Empreendedorismo e Inovação dos diversos cursos da Escola. «Poucas pessoas conseguem compreender todo o potencial [de uma nova tecnologia]. Os seus criadores são as pessoas mais habilitadas para o fazer», destaca.

A definição de inovação que eu mais gosto é a que a compara com a investigação: a investigação usa dinheiro para criar conhecimento e a inovação usa conhecimento para criar dinheiro, no sentido de criar valor.

Luís Caldas de Oliveira, coordenador do programa ElectroCap

«Aquilo que eu acho mais importante é a questão da inovação», sublinha Luís Caldas de Oliveira. Destaca que esta componente vai além do empreendedorismo, algo que é demonstrado pelo programa ElectroCap. Este corresponde ao projeto integrador dos estudantes finalistas da Licenciatura em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores do Técnico, criado após a reestruturação dos cursos, em 2023. «O ElectroCap tem como objetivo realizar um passo muito importante da inovação que é sabermos se a solução que estamos a pensar em oferecer para aquele problema tem alguma possibilidade de responder à necessidade. (...) Não temos como objetivo o empreendedorismo. A inovação é precisa em todo o lado», reforça.

Durante o último semestre da licenciatura, os estudantes são desafiados a criar soluções inovadoras que respondam a problemas reais, centrando o processo no contacto com os possíveis utilizadores do produto: «Na 1.ª fase, costumo dizer aos alunos que têm de falar com as pessoas frente a frente: têm de ver as pupilas dos olhos a dilatarem. Se não virem o interesse nos olhos da pessoa que tem o problema, não estão a apresentar a solução certa», realça. Após a identificação, estruturação e a análise do problema, os estudantes desenvolvem um protótipo funcional, o que permite a recolha de métricas que demonstram o impacto do seu projeto na prática.

O objetivo do programa é fazer com que os alunos sejam capazes de integrar num projeto os conhecimentos adquiridos na licenciatura.

Luís Caldas de Oliveira, coordenador do programa ElectroCap

Neste projeto integrador, os estudantes podem criar soluções para diversos setores da sociedade. Trata-se da única licenciatura do Técnico onde os finalistas são convidados a propor o seu próprio desafio, não estando limitados às propostas de professores ou de empresas. Este ano, foram apresentados vários projetos, como, por exemplo, um protótipo destinado à prevenção de golpes de calor em trabalhadores da construção civil com base na temperatura da pele e no ritmo cardíaco. Um outro projeto faz a análise de imagens de satélite, de forma a acompanhar a evolução da cultura em campos agrícolas, e ainda outro com um modelo funcional que monitoriza o processo de cura do betão, visando a minimização de falhas na construção de infraestruturas.

Anualmente, os projetos desenvolvidos são apresentados à sociedade no ElectroDay, um evento que permite dar a conhecer à comunidade as competências adquiridas pelos estudantes que terminam a LEEC, constituindo uma oportunidade para os alunos do ensino básico e secundário conhecerem, na prática, em que consiste a engenharia eletrotécnica e de computadores.

O que é importante é que as pessoas tenham em consideração que o conhecimento é necessário.

Luís Caldas de Oliveira, coordenador do programa ElectroCap

Quando questionado sobre que mensagem gostaria de passar aos estudantes que irão ingressar na LEEC no próximo ano letivo, o professor realça a importância dos alunos manterem a curiosidade, o que lhes dará a resiliência necessária para todo o curso. Embora a passagem pelo Técnico não seja um processo fácil devido à exigência da Escola, o professor sublinha que não existe aprendizagem sem esforço. Apesar dos modelos de linguagem darem respostas que parecem fáceis, sem o esforço de compreender a solução não há aprendizagem. Continuaremos a precisar de profissionais com conhecimento pois estas ferramentas não substituem a importância da interação humana na sociedade.

Em conclusão, Luís Caldas de Oliveira acrescenta ainda que, apesar do atual sistema de ensino de engenharia se basear em avaliações objetivas, com exames e testes, a avaliação do desenvolvimento de um projeto é um processo subjetivo, nem sempre bem entendido pelos estudantes. Contudo, o professor realça a importância desta forma de avaliar que coloca os alunos perante problemas reais, preparando-os tanto para o mercado de trabalho como para a continuação do seu percurso académico.

Temos de mudar a mentalidade dos alunos que nos chegam. (...) Na inovação não é possível dizer que há só uma forma de resolver um problema.

Luís Caldas de Oliveira, coordenador do programa ElectroCap

Tópicos: