ElectroStars: Tomás Glória
Tomás Glória venceu a 1.ª edição do Prémio Professor Sucena Paiva e foi galardoado com o 2.º lugar do Prémio APREN 2026.

Tomás Glória, alumnus do Mestrado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (MEEC), venceu a 1.ª edição do Prémio Professor Sucena Paiva, atribuído ao melhor estudante do mestrado com especialização em energia, e foi galardoado com 2.º lugar do Prémio APREN 2026, promovido pela Associação Portuguesa de Energias Renováveis. Atualmente, faz parte da equipa de planeamento de redes de baixa tensão da E-REDES. Em entrevista ao DEEC, o alumnus partilhou um pouco do seu percurso e explicou em que consistiu o trabalho vencedor.
O gosto pela engenharia, de uma forma um pouco geral, teve início durante o ensino secundário. Após ter tido os primeiros contactos com a programação, começou a realizar alguma pesquisa na área, de forma autónoma, e decidiu candidatar-se à Licenciatura em Engenharia Informática e de Computadores no Técnico. No entanto, devido à elevada média de ingresso, acabou por entrar na sua segunda opção: a Licenciatura em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores. Embora tivesse colocado inicialmente a hipótese de mudar de curso, o interesse pela licenciatura surgiu durante o 1.º ano. «Acho que eletro complementa bem a programação com tudo o resto que traz, por isso não senti necessidade nenhuma de mudar de curso», realça.
Na altura fiquei completamente apaixonado por eletro e acabei por querer continuar [...]. Ainda bem que o exame de matemática me correu mal.
Tomás Glória, alumnus de MEEC e vencedor da 1.ª edição do Prémio Professor Sucena Paiva
O interesse em conhecer melhor algumas das aplicações da Engenharia Eletrotécnica e de Computadores, aliado à vontade de esclarecer as dúvidas que ainda restavam relativamente à mudança de curso, levaram-no a juntar-se ao departamento de propulsão da TLMoto do Técnico. Durante aproximadamente três anos, foi responsável pela modelação e simulação de um modelo que permitia variar alguns parâmetros da mota, como as características que definem como o inversor transforma e controla a energia que alimenta o motor e a variação do número de células e de outras características da bateria. «Possivelmente lançou-me logo o “bichinho” pela energia desde o início», refere.
Paralelamente, no final da licenciatura, começou também a aprofundar alguns conhecimentos na área da transição energética: «comecei a preocupar-me um bocadinho com a questão das alterações climáticas e a ler sobre isso. O tema começou a interessar-me bastante e, na altura, percebi que energia era um grande pilar daquilo da transição energética. Pensei que seguir a especialização em energia podia ser onde podia “atacar mais esta área”», destaca.
Eu, de alguma maneira, quero resolver as alterações climáticas, mas sou obviamente consciente de que não posso ser só eu a resolver o problema. [...] Quando se pensa em transição energética, a rede elétrica acaba por estar no centro da questão, por isso percebi que queria seguir esta área.
Tomás Glória, alumnus de MEEC e vencedor da 1.ª edição do Prémio Professor Sucena Paiva
Continuou o seu percurso académico através do MEEC com especialização em energia e associou-se, como investigador assistente, a alguns projetos através do INESC-ID. Entre estes, participou no projeto ALAMO. Uma vez que os padrões de consumo podem revelar informações sobre a atividade de cada pessoa, como as suas rotinas e períodos de ausência de casa, torna-se fundamental evitar a partilha destes dados com uma entidade central, de modo a preservar a privacidade e a segurança dos consumidores. Neste contexto, o projeto tinha como objetivo desenvolver métodos de previsão de consumo e produção em comunidades de energia que permitissem realizar estas previsões, evintando a partilha de dados com uma entidade central.
Mais tarde, acabou por seguir, no âmbito da sua dissertação, um novo tema, sugerido pelo seu orientador Diogo Ferreira, investigador no INESC-ID: as interações entre controladores da rede de distribuição elétrica. Os controladores são, de uma forma simplificada, sistemas que monitorizam e ajustam parâmetros, como a tensão, a potência ativa (associada à transferência de energia elétrica) e a potência reativa (associada ao funcionamento dos equipamentos elétricos e ao controlo da tensão na rede), de forma a contribuir para o funcionamento estável da rede elétrica, mantendo os seus parâmetros dentro dos limites definidos.
A tensão é um dos parâmetros que tem de ser mantido dentro de certos intervalos para a energia elétrica chegar às nossas casas e à indústria da maneira que os aparelhos estão preparados para receber. Se chegar fora desses parâmetros, os equipamentos não vão funcionar bem.
Tomás Glória, alumnus de MEEC e vencedor da 1.ª edição do Prémio Professor Sucena Paiva
No entanto, pequenas variações na produção e no consumo, incluindo a ligação de um aparelho, como uma lâmpada ou uma ventoinha, podem, dependendo das condições da rede, originar alterações na magnitude da tensão. Por este motivo, é necessário que os controladores garantam que estes valores não ultrapassem os limites que asseguram a manutenção da estabilidade da rede.
Adicionalmente, a rede elétrica possui vários controladores que podem atuar de forma independente. Como as ações de cada controlador podem alterar as condições da rede monitorizadas pelos restantes, estes podem acabar por influenciar-se mutuamente e gerar comportamentos indesejados. Entre as consequências, encontram-se os fenómenos em cascata, que podem provocar sobrecargas e, em casos extremos, levar a interrupções no fornecimento de energia.
O meu objetivo foi desenvolver um algoritmo que definisse os parâmetros dentro dos quais esses controladores devem atuar para que não gerassem estas interações instáveis.
Tomás Glória, alumnus de MEEC e vencedor da 1.ª edição do Prémio Professor Sucena Paiva
Este trabalho foi determinante para a atribuição das referidas distinções. Tomás Glória destaca que foi particularmente gratificante receber o Prémio Professor Sucena Paiva, entregue pessoalmente pelo próprio professor, devido ao facto de ser, para si, uma personalidade de referência na área da energia. «O livro de que mais gostei de ler, para as cadeiras, foi da autoria do professor», sublinha.
Por outro lado, o Prémio APREN representou, para si, o reconhecimento do seu trabalho fora do ambiente académico e do respetivo impacto no âmbito do planeamento e da operação das redes elétricas com integração de fontes renováveis, cuja variabilidade pode provocar alterações nos parâmetros da rede.
Atualmente, Tomás Glória continua a trabalhar nesta área, integrando a equipa de planeamento de redes elétricas de baixa tensão da E-Redes. Neste contexto, contribui para a análise das fragilidades da rede e para a proposta e implementação de soluções que otimizem o seu funcionamento.
Senti-me totalmente preparado [para a entrada na vida profissional]. [...] Acho que o tempo que estamos no Técnico é muito importante para aprender a aprender e acho que isso deixou-me preparadíssimo para qualquer desafio que tenha pela frente.
Tomás Glória, alumnus de MEEC e vencedor da 1.ª edição do Prémio Professor Sucena Paiva
Relativamente ao «salto» para o mercado de trabalho, o alumnus destaca que o desenvolvimento das capacidades de aprendizagem e de adaptação, durante a passagem pelo Técnico, foi fundamental na transição para esta nova etapa, algo que realça ter sido bastante influenciado pelo ensino na Escola. «Eu sinto que posso fazer qualquer coisa, que consigo aprender, que tenho a capacidade de me adaptar para qualquer tarefa que me deem. Não preciso de saber fazer essa tarefa a priori para, no prazo de duas semanas, estar a fazer essa tarefa. É o raciocínio que se forma aqui», sublinha, reforçando a importância de adquirir conhecimentos teóricos antes de «colocar as mãos na massa».
Se pudesse deixar uma mensagem aos novos estudantes, afirma que seria para não terem medo de errar: «Quanto mais vezes se erra, melhor. Significa que já estamos a excluir caminhos e que estamos cada vez mais perto do caminho certo. Gostava talvez que me tivessem dito isto mais cedo e que eu tivesse aprendido isto mais cedo», afirma.
Errar é mesmo importante; é a maneira mais fácil de evoluir.
Tomás Glória, alumnus de MEEC e vencedor da 1.ª edição do Prémio Professor Sucena Paiva
