ElectroStarts: Pedro Martin

Hoje partilhamos a entrevista a Pedro Martin, atualmente estudante do Programa Doutoral em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (DEEC) e investigador no Instituto de Telecomunicações (IT). A sua investigação centra-se em processamento de sinais, em particular na compressão e análise de qualidade de sinais tridimensionais (3D), algo que lhe tem proporcionado a participação em conferências internacionais e a colaboração com investigadores de diferentes instituições. No entanto, os seus interesses vão além da investigação científica: em conjunto com um grupo de amigos, criou a Associação Cultural Imprevisto, uma iniciativa que promove o debate e a partilha de conhecimento entre estudantes de várias universidades de Lisboa. Em entrevista ao DEEC, Pedro Martin falou sobre o seu percurso académico, os desafios do doutoramento e a importância de alargar a aprendizagem para além da sala de aula.

O processamento de sinal 3D é fundamental para diversos tipos de tecnologia, desde o levantamento de edifícios e estruturas ao desenvolvimento de sistemas de realidade virtual e aumentada. No entanto, o grande volume que estes dados tipicamente ocupam exige mecanismos eficientes de compressão para viabilizar o seu armazenamento e transmissão em sistemas reais de telecomunicações. Esta necessidade que faz surgir também outro desafio, o de compreender o impacto que estes algoritmos de compressão têm na qualidade final do sinal.

É neste fenómeno em que se baseia a investigação realizada por Pedro Martin. O seu trabalho, orientado pelos professores Paula Queluz, João Ascenso e António Rodrigues, docentes do DEEC e investigadores no IT, incide sobre a área de processamento de sinais 3D, centrando-se principalmente na compressão e na análise de qualidade.

No contexto da academia, o interesse por esta área foi impulsionado após o desenvolvimento de um algoritmo, NeRF, destinado à reconstrução 3D, publicado em 2020 pela Google. «Havia um grande entusiasmo na academia e decidimos começar a trabalhar sobre esse tema», recorda. Mas, na prática, em que consiste o trabalho nesta área?

Imaginemos que eu quero fazer uma réplica desta sala para poder enviar a um amigo que está na China, para ele perceber como é o espaço onde estamos a ter esta reunião [...] A nossa função é tentar pegar no modelo 3D deste espaço e comprimi-lo. [...] Posteriormente, enviamos o ficheiro para o nosso amigo, ele descomprime-o e consegue ver a sala com a devida qualidade.

Pedro Martin, estudante do PDEEC e investigador no IT

Na prática, o processo pode ser dividido em várias etapas. Após a recolha de fotografias e/ou vídeos do espaço, que correspondem a dados em formato bidimensional (2D), a informação é processada através de um algoritmo que executa a reconstrução da sala em formato tridimensional (3D). Desta forma, a representação permite ao utilizador percecionar a geometria e a profundidade do espaço. No entanto, este ficheiro torna-se «demasiado pesado», algo que impossibilita o envio da informação de uma forma direta para o destinatário da mensagem. «Estamos a falar na ordem de grandeza dos gigabytes. Uma fotografia, que se envia por WhatsApp, corresponde a aproximadamente 1 megabyte; 1 gigabyte é mais ou menos o tamanho de um filme inteiro em full HD», explica o estudante.

Por este motivo, é necessário comprimir o ficheiro 3D, antes de proceder ao envio da mensagem, e descomprimi-lo, após a respetiva receção. «Um dos nossos objetivos é perceber como é que uma dada mensagem pode ser comprimida sem perder qualidade», refere Pedro Martin.

Um dos principais desafios é não perder a qualidade do sinal, ou seja, comprimi-lo de tal forma que esta sala continua a ser reconhecida como tal.

Pedro Martin, estudante do PDEEC e investigador no IT

Além do desenvolvimento de algoritmos, a investigação tem proporcionado a escrita de vários artigos científicos. No entanto, o estudante destaca que a publicação tem sido um dos maiores desafios enfrentados durante o 3.º ciclo de estudos. «Não escondo o nervosismo que isso traz consigo», refere, tendo em consideração que nem todos os trabalhos são selecionados, após a avaliação realizada pelos revisores científicos (peer review). Ainda assim, sublinha que tem tido a oportunidade de publicar vários trabalhos, entre os quais destaca a criação de uma base de dados, associada ao trabalho NeRF-QA: Neural Radiance Fields Quality Assessment Database, que reunia os resultados da análise da qualidade de diferentes modelos 3D. «Paradoxalmente, o artigo mais simples e curto que fiz foi dos mais reconhecidos», recorda.

Por outro lado, a produção científica tem proporcionado o contacto com a comunidade científica internacional. Entre as colaborações, refere o trabalho desenvolvido em conjunto com o grupo Joint Photographic Experts Group (JPEG), que foi responsável pelo desenvolvimento do algoritmo que permite comprimir imagens em formato JPEG.

A sua investigação tem permitido a sua participação em conferências e outros eventos científicos em países como Bélgica, Japão, Espanha e Turquia.

É sempre um privilégio ir a conferências e poder apresentar o meu trabalho. Tem sido uma experiência bastante enriquecedora para o meu doutoramento. Tenho conhecido e ganho familiaridade com investigadores de várias outras instituições, até fora de Portugal.

Pedro Martin, estudante do PDEEC e investigador no IT

O contacto com diferentes investigadores e contextos científicos tem contribuído não só para o desenvolvimento da investigação, mas também para o interesse de Pedro Martin pela comunicação de ciência. Essa vontade de partilhar conhecimento levou-o a receber uma menção honrosa nos PhD Open Days 2025. «Foi sobretudo uma descoberta que eu fiz: o gosto de poder comunicar, de forma precisa, toda a investigação que eu faço», realça, acrescentando que esta é uma capacidade que tem vindo a desenvolver ao longo do doutoramento.

Apesar do envolvimento na investigação e na comunidade científica, a decisão de prosseguir os estudos até ao doutoramento não fez parte dos seus planos desde o início do percurso académico.

Ao contrário da maioria dos meus colegas de doutoramento, eu quando entrei para este curso não tinha sequer em mente a ideia de fazer o doutoramento, nunca tinha sido uma hipótese.

Pedro Martin, estudante do PDEEC e investigador no IT

Embora tenha realizado todo o seu percurso académico no Técnico, foi durante os últimos anos que Pedro Martin refletiu particularmente sobre o impacto da investigação académica. «Um dos critérios para a escolha do curso foi que se dizia que a engenharia eletrotécnica abria muitas portas no mundo do trabalho. A escolha do doutoramento foi algo que aconteceu só no último ano do mestrado», refere.

A decisão de continuar na academia teve origem em dois fatores: no gosto pela investigação, que surgiu no âmbito do desenvolvimento da tese de mestrado, e na possibilidade de continuar a dar apoio, como assistente de ensino, nas unidades curriculares no curso de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores. «Estas duas experiências foram tão fortes que foi bastante natural seguir o doutoramento», destaca. Desde essa altura, tem conciliado a investigação com o ensino. No futuro, o estudante destaca que gostaria de seguir uma carreira ligada à prática pedagógica.

Gostei muito da experiência do ensino; uma sala de aula com alunos e um professor, juntos para aprofundarem o interesse por um dado aspeto da realidade. Desde essa altura, todos os anos tenho sido TA (Teaching Assistant).

Pedro Martin, estudante do PDEEC e investigador no IT

Porém, para Pedro Martin, o conceito de aprendizagem não se cinge ao ensino universitário. O estudante, em conjunto com um grupo de amigos, criou também a Associação Cultural Imprevisto, na qual continua a colaborar ativamente. Esta iniciativa promove a organização de exposições e palestras em diversos temas, como saúde, economia, ciência e literatura. Os eventos são abertos à participação de estudantes de várias universidades de Lisboa, independentemente do nível de conhecimento em relação ao tema. «Queríamos sobretudo repropor um certo conceito de universidade, concebida como um lugar onde professores e alunos partilham e crescem juntos no gosto por aprofundar os interesses que têm em comum, quaisquer que eles sejam; e sentimos uma certa responsabilidade, enquanto estudantes, de apresentar uma proposta pública nesse sentido, algo que não tivesse confinado a uma só área de conhecimento. Acreditamos que tudo é digno de interesse», refere.

Entre a investigação, o ensino e a participação cultural, Pedro Martin destaca a importância de aproveitar as oportunidades para explorar interesses pessoais e desenvolver novas competências, além do contexto de sala de aula tradicional.

Se pudesse deixar uma mensagem aos estudantes mais novos, eu diria para procurarem viver o mais intensamente possível a experiência universitária. É o tempo para levar a sério os nossos interesses, seguir até ao fundo os nossos próprios gostos e assim nos tornarmos protagonistas. Na prática, é o que acaba por gerar mais frutos, tanto a nível pessoal, como a nível profissional.

Pedro Martin, estudante do PDEEC e investigador no IT

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